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Fantasma do Século XX

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Fantasma do Século XX

Mensagem  Bianca Johnson em Sex Mar 08, 2013 10:29 pm

Povo, vou postar aqui o meu conto favorito, Fantasma do Século XX, de Joe Hill. Espero que gostem tanto quanto eu.


A MELHOR HORA PARA VÊ-LA É QUANDO A SALA ESTÁ QUASE LOTADA. Há uma história conhecida de um homem que vai a uma sessão noturna e encontra a enorme sala de cinema, com 600 lugares, praticamente deserta. No meio do filme, olha em volta e a vê sentada ao seu lado, em um lugar que segundos antes estava vazio. Ele olha para ela. Ela vira a cabeça e retribui o olhar. O nariz dela está sangrando. Seus olhos estão arregalados, assustados.
— Minha cabeça dói — sussurra ela. — Preciso sair um pouco. Você me conta o que eu perder?
É nesse instante que o homem percebe que ela é tão diáfana quanto o raio de luz azul e trêmulo lançado pelo projetor. É possível ver a poltrona ao lado através do seu corpo. Quando ela se levanta da cadeira, dissolve-se no ar.
Há também o caso de um grupo de amigos que entra no cinema Rosebud numa noite de quinta-feira. Um dos rapazes se senta ao lado de uma mulher sozinha, vestida de azul. Como o filme demora a começar, ele resolve puxar conversa.
— Que filme será exibido amanhã? — pergunta ele.
— O cinema amanhã ficará escuro — ela sussurra. — Esta é a última sessão.
Pouco depois de o filme começar, ela desaparece. No caminho de casa, o rapaz morre em um acidente de carro.
Essas e muitas outras lendas conhecidas sobre o Rosebud são falsas... histórias de fantasmas de gente que assistiu a muitos filmes
de terror e pensa saber exatamente como deve ser uma história de fantasma.
Alec Sheldon, um dos primeiros a ver Imogene Gilchrist, é o dono do Rosebud e, aos 73 anos de idade, ainda opera o projetor quase todas as noites. Depois de conversar com alguém, mesmo que seja apenas por alguns instantes, ele sempre percebe se a pessoa de fato a viu ou não, mas guarda segredo sobre o que sabe e nunca desmente ninguém publicamente. Poderia ser ruim para os negócios.
Ele tem certeza, porém, de que qualquer um que diga que conseguiu ver através do corpo dela não a viu de verdade. Algumas dessas pessoas falam de sangue escorrendo pelo nariz, pelas orelhas, pelos olhos; dizem que ela lhes lançou um olhar de súplica e que lhes pediu para chamar alguém ou buscar ajuda. Mas ela não sangra assim e quando está com vontade de conversar, não é para pedir a alguém que chame um médico. Muitos dos farsantes começam a história dizendo: ―O senhor nunca vai acreditar no que eu acabei de ver.” Eles estão certos. Alec não acredita mesmo, embora escute tudo o que eles têm a dizer com um sorriso paciente, encorajador até.
Quem realmente a vê não vai procurar Alec para lhe contar. Na maioria das vezes, é ele quem os encontra vagando pelo saguão, de pernas bambas. Tiveram um choque grande, não estão se sentindo bem. Precisam se sentar um pouco. Eles nunca dizem “O senhor não vai acreditar no que eu acabei de ver”. A experiência ainda está recente demais. A idéia de que não vão acreditar neles só ocorre depois. Muitas vezes, sua atitude pode ser descrita como contida, submissa. Quando Alec pensa no efeito que ela exerce sobre quem a vê, pensa em Steven Greenberg saindo da sala durante a exibição de Os pássaros em uma tarde fresca de domingo, em 1963. Steven tinha
acabado de completar 12 anos e demoraria mais 12 para se tornar famoso; nessa época, ainda não era um menino de ouro, era apenas um menino.
Alec estava no beco escuro atrás do Rosebud, fumando um cigarro, quando ouviu a porta de emergência do cinema se abrir ruidosamente atrás de si. Virou-se e viu um garoto magro e comprido apoiado no vão da porta — simplesmente encostado ali, sem entrar nem sair. O menino apertava os olhos por causa da forte luz do sol, com a expressão confusa de uma criança pequena que acaba de despertar de um sono profundo. Atrás dele, Alec pôde ver a escuridão cheia do barulho estridente dos milhares de pardais do filme. Pôde ouvir também alguns espectadores se remexendo, irrequietos, reclamando da claridade.
— Ei, garoto, você vai entrar ou vai sair? — perguntou Alec. — Está deixando a luz entrar. O menino — Alec ainda não sabia seu nome — virou a cabeça e tornou a olhar para dentro da sala de cinema. Então saiu e a porta se fechou atrás dele, girando silenciosamente na dobradiça pneumática. Mesmo assim, ele não foi a lugar nenhum nem disse nada. Já fazia duas semanas que Os pássaros estava em cartaz e, embora Alec tivesse visto outras pessoas saírem antes do final, nenhuma dessas saídas prematuras havia sido de um menino de 12 anos. Aquele era o tipo de filme que a maioria dos garotos dessa idade esperava o ano inteiro para assistir, mas quem poderia saber? Talvez aquele tivesse estômago fraco.
— Deixei minha Coca-Cola lá dentro — disse o garoto, com a voz distante, quase inaudível. — Ainda tinha um restinho.
— Quer entrar para procurar?
O menino ergueu os olhos com uma expressão de pânico, e foi então que Alec percebeu.
— Não — respondeu.
Alec terminou o cigarro e jogou-o longe.
— A moça morta sentou do meu lado — disse o menino de repente. — Ela falou comigo.
— O que foi que ela disse?
Alec tornou a olhar para o menino e viu sua expressão de incredulidade.
— “Eu preciso de alguém para conversar”, foi isso que ela disse. “Quando fico entusiasmada com um filme, preciso falar com alguém.”
Alec sabe que, quando ela fala com alguém, é sempre porque quer conversar sobre os filmes. Em geral ela fala com homens, embora às vezes fique sentada conversando com uma mulher — especialmente com Lois Weisel. Alec estava elaborando uma teoria sobre o que afazia aparecer. Vinha fazendo anotações em um bloquinho amarelo. Tinha uma lista das pessoas para quem ela costumava aparecer, além dos filmes e das datas (Leland King, Ensina-me a viver, 1972; Joel Harlowe, Erasehead, 1977; Hal Lash, Gosto de sangue, 1985; entre vários outros). Ao longo dos anos, havia desenvolvido idéias claras sobre as condições mais propícias ao seu aparecimento, embora as especificidades de sua teoria estivessem sujeitas a constantes revisões.
Quando ele era jovem, ela estava sempre em seus pensamentos; tinha sido sua primeira e mais intensa obsessão. Depois de algum tempo, porém, isso melhorou — o cinema ia de vento em popa e ele se tornou um importante homem de negócios da comunidade,
membro da Câmara de Comércio e do Conselho de Planejamento Urbano. Nessa época, passava dias sem pensar nela. Mas era só alguém vê-la — ou fingir tê-la visto — e tudo começava de novo.
Após o divórcio — a ex-mulher ficara com a casa e ele teve de se mudar para o quarto-e-sala embaixo do cinema — e não muito depois da inauguração do complexo de oito salas de exibição nos arredores da cidade, sua obsessão recomeçou. Dessa vez, era menos com ela e mais com o Rosebud em si (será que há alguma diferença entre as duas coisas? Na verdade, não, achava ele, pois pensamentos sobre uma sempre acabavam em pensamentos sobre a outra). Nunca havia se imaginado tão velho e devendo tanto dinheiro. Tem dificuldade para dormir, com a cabeça repleta de idéias — estapafúrdias, desesperadas — sobre como impedir que o cinema fosse à falência. Fica acordado pensando em receita, pessoal, bens com liquidez. E quando não consegue mais pensar em dinheiro, tenta imaginar para onde irá caso o cinema feche. Visualiza um asilo para idosos, colchões fedendo a pomada analgésica, velhotes corcundas sem dentadura sentados em uma sala de recreação bolorenta assistindo a seriados de TV; vê um lugar onde ele irá se consumir passivamente, como um papel de parede exposto à luz do sol que vai aos poucos perdendo a cor.
Isso, por si só, já é ruim. Pior ainda é tentar imaginar o que vai acontecer com ela caso o Rosebud feche as portas. Ele vê o cinema sem poltronas, um espaço vazio cheio de ecos, com redemoinhos de poeira nos cantos e pedaços de chiclete petrificados grudados no cimento. Vê adolescentes do bairro arrombando o espaço para beber e trepar; garrafas de bebida espalhadas, pichações grosseiras nas paredes, uma única e grotesca camisinha usada no chão em frente à tela.
Vê o lugar desolado e violentado onde ela irá se extinguir. Ou onde não irá se extinguir... o que é pior.


A PRIMEIRA VEZ QUE ALEC A VIU E FALOU COM ELA FOI AOS 15 ANOS DE IDADE, SEIS dias depois de ficar sabendo que seu irmão fora morto em combate no Pacífico Sul. O presidente Truman enviara uma carta expressando suas condolências. Era uma carta-padrão, mas a assinatura no final... a assinatura era mesmo do presidente. Alec ainda não havia chorado. Anos mais tarde, entenderia que passara aquela semana inteira em estado de choque, que perdera a pessoa que mais amava no mundo e que isso o deixara gravemente traumatizado. Em 1945, porém, ninguém usava a palavra ―trauma para se referir a emoções — o único trauma sobre o qual se falava, na época, era o produzido pela detonação de uma bomba.

DE MANHÃ, ALEC DIZIA À MÃE QUE ESTAVA INDO PARA A ESCOLA, MAS NÃO IA. Ficava vagando pelo centro da cidade procurando encrenca. Roubava balas de uma lanchonete e as comia numa fábrica de sapatos desativada (já que todos os homens estavam na França ou no Pacífico). Com o açúcar correndo nas veias, atirava pedras nas vidraças, treinando seus arremessos rápidos.
Um dia foi parar no beco atrás do Rosebud, olhou para a porta do cinema e viu que não estava bem fechada.
Era uma superfície de metal liso, sem maçaneta, mas ele conseguiu abri-la usando as unhas. Entrou no meio da sessão de 15h30, com o cinema lotado de crianças com menos de 10 anos de idade acompanhadas das mães. A porta de emergência ficava escondida nas sombras, então ninguém o viu entrar. Subiu o corredor meio abaixado e encontrou um lugar nos fundos.
— Ouvi dizer que o Jimmy Stewart foi lutar no Pacífico — dissera-lhe o irmão durante a folga que passara em casa, antes de tornar a embarcar para a guerra. Estavam treinando arremessos de beisebol no quintal dos fundos. — O Sr. Smith a uma hora dessas deve estar expulsando aquelas porras daqueles japoneses desgraçados. O que você acha dessa ideia maluca?
O irmão de Alec, Ray, era um aficionado de cinema. Ele e Alec haviam assistido a todos os filmes que estrearam durante sua folga de um mês: Patrulha de Bataan, Romance dos sete mares, O bom pastor.
Alec esperou enquanto era exibido um episódio de uma série sobre as aventuras de um caubói cantor de longos cílios e boca tão escura que seus lábios chegavam a ser pretos. Aquilo não o interessava. Ele ficou limpando o nariz e imaginando como arrumar uma Coca-Cola sem pagar. O filme principal começou.
Alec não conseguiu identificar logo que diabo de filme era aquele, embora desde o início tenha tido a desoladora sensação de que seria um musical. Primeiro, os membros de uma orquestra ocuparam um palco em frente
a um fundo azul desbotado. Então apareceu um cara de camisa engomada e começou a falar com os espectadores sobre o novíssimo tipo de entretenimento ao qual estavam prestes a assistir. Quando ele começou a dizer baboseiras sobre Walt Disney e seus artistas, Alec pôs-se a afundar na poltrona, enterrando a cabeça nos ombros. A orquestra explodiu em acordes de instrumentos de corda e de sopro. Dali a instantes, seus piores temores viraram realidade. Não era apenas um musical: era também um desenho animado. É claro que seria um desenho animado, ele deveria ter percebido. O lugar estava lotado de criancinhas com suas mães, o filme estava sendo exibido às 15h30 de um dia de semana e começava com um episódio do Kid Batom, a bichinha cantante das planícies.
Depois de algum tempo, levantou a cabeça, deu uma espiada na tela por entre os dedos e assistiu a alguns minutos de animação abstrata: gotas de chuva prateadas caindo contra um fundo de fumaça revolta, raios de luz tremeluzindo em um céu cor de chumbo. Depois de algum tempo, endireitou-se numa posição mais confortável. Não tinha certeza do que sentia. Estava entediado, mas interessado também, e um pouco fascinando. Era difícil não olhar. As imagens o atingiam como um ataque hipnótico constante — fachos de luz vermelha, estrelas rodopiantes, montanhas de nuvens reluzindo à luz carmim de um sol poente.
As criancinhas se remexiam nas poltronas. Ele ouviu uma menininha perguntar bem alto: ―Mamãe, quando
é que o Mickey vai aparecer? Quando começou a segunda parte do filme e a orquestra passou de Bach a Tchaikovsky, ele já estava sentado ereto, um pouco inclinado para a frente, com os antebraços apoiados nos joelhos. Viu fadas zunindo por uma floresta escura, tocando flores e teias de aranha com varinhas de condão e espalhando lençóis de orvalho cintilante, incandescente. Sentiu uma espécie de deslumbramento ao vê-las voar de um lado para outro, uma curiosa sensação de nostalgia. Ocorreu-lhe de repente que seria capaz de ficar ali para sempre assistindo àquilo.
— Eu poderia ficar sentada aqui neste cinema para sempre — sussurrou alguém ao seu lado. Era uma voz de menina. — Simplesmente ficar sentada aqui assistindo e nunca mais ir embora.
Ele não sabia que havia alguém sentado ao seu lado e sobressaltou-se ao ouvir uma voz tão próxima. Achava — achava, não, tinha certeza — que, quando se sentara, as duas poltronas ao seu lado estavam vazias. Virou a cabeça.
Ela era pouco mais velha do que ele, mas não devia ter mais de 20 anos, e seu primeiro pensamento foi que ela era uma gata; seu coração bateu mais depressa por ter uma menina assim falando com ele. Pensou consigo mesmo: Não vá estragar tudo. Ela não estava olhando para ele. Tinha os olhos cravados na tela e sorria de uma forma que transmitia ao mesmo tempo a admiração e o encantamento de uma criança. Ele sentiu uma vontade danada de
dizer alguma coisa inteligente, mas sua voz estava presa na garganta.
Ela se inclinou na direção dele sem tirar os olhos da tela e tocou de leve seu braço sobre o encosto da poltrona.
— Desculpe incomodar você — sussurrou ela. — Quando eu fico empolgada com um filme, sinto vontade de falar. Não consigo evitar.
No instante seguinte, ele reparou em duas coisas, mais ou menos ao mesmo tempo. A primeira era que a mão encostada em seu braço estava fria. Pôde sentir sua temperatura glacial através do suéter, um frio tão palpável que o deixou um pouco surpreso. A segunda coisa foi uma gotinha de sangue em seu lábio superior, debaixo da narina esquerda.
— Seu nariz está sangrando — disse ele numa voz alta demais. No mesmo instante desejou não ter dito isso. Só se tem uma única oportunidade de impressionar uma garota como aquela. Ele deveria ter encontrado alguma coisa e estendido para ela, murmurando algo ao estilo Sinatra: ―Tome, você está sangrando.
Enfiou as mãos nos bolsos, apalpando em busca de algo com que ela pudesse limpar o sangue. Não encontrou nada.
Mas ela não demonstrou tê-lo escutado nem pareceu ter a menor consciência de que ele havia falado. Distraída, esfregou o dorso de uma das mãos sob o nariz, deixando uma mancha escura de sangue no lábio superior... e Alec congelou com as mãos nos bolsos, encarando-a. Foi o primeiro indício de que havia alguma coisa errada com a garota sentada ao seu lado, alguma coisa ligeiramente fora de lugar na cena que se desenrolava entre eles. Por instinto, ele retesou o corpo e se afastou um pouco dela, sem saber muito bem por que estava fazendo aquilo.
Ela riu de alguma coisa, um som suave, arfante. Então inclinou-se para ele e sussurrou:
— Esse filme não é adequado para crianças. O Harry Parcells adora este cinema, mas só passa os filmes errados... Você conhece Harry Parcells, dono desta sala?
Uma nova gota vermelha escorria de sua narina esquerda e seus lábios estavam sujos de sangue, mas a essa altura a atenção de Alec já se voltara para outra coisa. Os dois estavam sentados bem debaixo do facho do projetor, e insetos rodopiavam através da coluna de luz azul acima deles. Uma mariposa branca havia pousado no rosto dela. Subia pela sua bochecha, mas ela não reparou. Alec não comentou nada. O ar que tinha no peito não era suficiente para falar.
Ela disse, baixinho:
— Ele acha que só porque é um desenho animado as crianças vão gostar. Engraçado ele ser tão louco por filmes e saber tão pouca coisa sobre eles. Não vai durar muito como dono deste cinema.
Ela olhou para ele e sorriu. Seus dentes estavam manchados de sangue. Alec não conseguiu se levantar. Uma segunda mariposa, branca como marfim, aterrissou na borda interna da delicada orelha dela.
— Seu irmão Ray teria adorado este filme — disse ela.
— Vá embora daqui — sussurrou Alec com a voz rouca.
— O seu lugar é aqui, Alec — disse ela. — O seu lugar é aqui comigo.
Ele finalmente se mexeu, precipitando-se para fora da poltrona. A primeira mariposa estava se embrenhando nos cabelos dela. Ele pensou ter se ouvido gemer. Começou a se afastar dela. Ela o encarava. Ele recuou alguns passos pelo corredor e tropeçou nas pernas de uma criança que gritou. Alec desviou os olhos dela por um instante e cravou-os em um menino gorducho de camiseta listrada que o encarava, zangado, como quem diz: ―Olha por onde anda, pateta.
Alec tornou a se virar para a garota, e ela agora estava afundada na poltrona. Tinha a cabeça caída sobre o ombro esquerdo. Suas pernas estavam abertas em uma pose lasciva. Grossos filetes de sangue, secos e rachados, saíam de suas narinas, emoldurando sua boca de lábios finos. Seus olhos estavam revirados nas órbitas. Em seu colo havia um saquinho de pipoca esparramado.
Ele achou que fosse dar um grito, mas não deu. Ela estava totalmente imóvel. Ele olhou para ela e em seguida para o menino em quem tinha tropeçado. O gordinho olhou casualmente na direção da garota morta, sem esboçar qualquer reação. Voltou-se para Alec, intrigado, com um dos cantos da boca erguido num sorriso de desdém.
— Moço — disse uma mulher, mãe do menino gordo. — Você pode sair da frente, por favor? Estamos tentando ver o filme.
Alec lançou um último olhar para a menina, mas agora a poltrona onde ela estivera sentada estava vazia, com o assento erguido. Ele começou a recuar, esbarrando nas pernas das pessoas, quase caindo no chão, segurando-se em alguém para se apoiar. Então, de repente, a sala irrompeu em vivas e aplausos. Seu coração pulou. Ele gritou e olhou em volta, desnorteado. Era o Mickey na te-la, usando uma túnica vermelha comprida — o Mickey finalmente havia aparecido.
Alec avançou pelo corredor e passou pelas portas forradas de couro até chegar ao saguão. Encolheu-se por causa da claridade do meio da tarde, apertando os olhos. Sentia-se enjoado. Então alguém segurou seu ombro, virou-o e o conduziu pelo vestíbulo até a escada que levava ao andar superior. Alec sentou-se no primeiro degrau, largando o corpo com força.
— Descanse um minuto — disse alguém. — Não se levante. Recupere o fôlego. Você acha que vai vomitar?
Alec fez que não com a cabeça.
— Porque, se você acha que vai vomitar, segure até eu pegar um saquinho. Não é muito fácil tirar manchas deste carpete. Além disso, quando as pessoas sentem cheiro de vômito, perdem a vontade de comer pipoca.
A pessoa ficou mais alguns instantes ao seu lado, depois virou-se e saiu, sem dizer uma palavra. Voltou em um minuto.
— Tome. É por conta da casa. Beba devagar. O gás vai fazer seu enjoo melhorar. Alec pegou o copo de papel encerado coberto de gotículas de água fria, encontrou o canudo com a boca e sugou uma Coca-Cola geladíssima e cheia de gás. Ergueu os olhos. O homem em pé ao seu lado era alto, de ombros caídos, com um pneu flácido em volta do torso. Seus cabelos eram escuros e estavam cortados bem curtos. Seus olhos, atrás dos óculos absurdamente grossos, eram pequenos, claros e nervosos.
— Tem uma menina morta lá dentro — disse Alec, sem conseguir reconhecer a própria voz.
O rosto do homem alto perdeu a cor, e ele lançou um olhar triste para as portas que conduziam à sala de exibição.
— Ela nunca veio à matinê antes. Achei que só aparecesse nas sessões noturnas, achei que... pelo amor de Deus, é um filme infantil. O que ela está tentando fazer comigo?
Alec abriu a boca; não sabia o que iria dizer, provavelmente alguma coisa sobre a menina, mas não foi isso que saiu.
— Na verdade, esse filme não é para crianças.
— Claro que é. É um filme do Walt Disney — respondeu o homem, um pouco irritado.
Alec passou vários instantes observando-o, depois arriscou:
— O senhor deve ser Harry Parcells.
— Eu mesmo. Como é que você descobriu?
— Foi chute — respondeu Alec. — Obrigado pela Coca.
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Re: Fantasma do Século XX

Mensagem  Bianca Johnson em Sab Mar 09, 2013 4:46 pm

ALEC SEGUIU HARRY PARCELLS ATÉ O BALCÃO DA LANCHONETE, ATRAVESSOU UMA porta e chegou a um patamar ao pé de uma escada. Harry abriu uma porta à direita e os dois entraram em um escritório pequeno, abarrotado de coisas. O chão estava coberto de latas de filme. Cartazes desbotados cobriam as paredes, um se sobrepondo ao outro: Cidade dos meninos, David Copperfield, ... E o vento levou.
— Sinto muito por ela ter assustado você — disse Harry, desabando na cadeira atrás da escrivaninha. — Tem certeza de que está tudo bem? Você parece abalado.
— Quem é a garota?
— Alguma coisa estourou dentro do cérebro dela — disse Harry, apontando um dedo para a têmpora esquerda, como se fingisse segurar uma arma contra a própria cabeça. — Seis anos atrás. Durante O mágico de Oz, no dia da estréia. Foi uma coisa horrível. Ela vinha aqui sempre, era minha cliente mais assídua. Costumávamos conversar, brincar um com o outro... — A voz dele sumiu, confusa e triste. Ele apertou as mãos rechonchudas sobre
o tampo da mesa à sua frente e por fim falou: — Agora está tentando me levar à falência.
— Ela já apareceu para o senhor.
Não era uma pergunta. Harry aquiesceu.
— Sim, alguns meses depois de morrer. Disse que o meu lugar não é aqui. Não sei por que ela agora quer me assustar, se antes nos dávamos tão bem. Ela disse a você que fosse embora?
— Por que ela está aqui? — perguntou Alec, numa voz ainda rouca. Aquela era uma pergunta estranha. Durante algum tempo, Harry ficou simplesmente olhando para ele através dos óculos grossos, com uma expressão que parecia de total incompreensão. Então sacudiu a cabeça e respondeu.
— Ela está infeliz. Morreu antes do final de O mágico de Oz e ainda está triste por causa disso. Eu entendo. Era um ótimo filme. Eu também me sentiria injustiçado.
— Olá? — gritou alguém do saguão. — Tem alguém aí?
— Só um minuto — berrou Harry em resposta. Lançou um olhar consternado para Alec. — A funcionária da lanchonete comunicou ontem que vai embora. Não deu aviso prévio nem nada.
— Por causa do fantasma?
— Não, não. Uma das unhas postiças dela caiu dentro da comida de alguém, então eu disse a ela que parasse de usar as unhas. Ninguém quer encontrar uma unha no meio de um bocado de pipoca. Ela me disse que uma
porção de rapazes que ela conhece vem a este cinema e que, se ela não pudesse usar as unhas, não iria mais trabalhar para mim. Agora eu tenho que fazer tudo sozinho. — Disse isso enquanto dava a volta na escrivaninha. Estava segurando um recorte de jornal. — Isto aqui fala sobre ela. — Então lançou um olhar para Alec, não exatamente zangado, mas com um ar de advertência, e arrematou: — Não saia daqui. Ainda precisamos conversar.
Harry saiu da sala e Alec ficou observando-o, perguntando-se o que significaria aquele olhar esquisito. Baixou os olhos para o recorte. Era um obituário — o obituário dela. O papel estava amassado, os cantos carcomidos, a tinta gasta; parecia ter sido manuseado muitas vezes. A garota se chamava Imogene Gilchrist, morrera aos 19 anos, trabalhava numa papelaria na Water Street. Deixava os pais, Colm e Mary. Amigos e parentes mencionavam sua linda risada, seu senso de humor contagiante. Falavam sobre como ela adorava cinema. Assistia a todos os filmes no dia da estréia, na primeira sessão. Era capaz de recitar o elenco inteiro de quase qualquer filme — sabia até os nomes dos atores que só tinham uma fala. Era presidente do grupo de teatro do seu colégio, atuava em todas as peças, montava os cenários, preparava a iluminação. ―Sempre achei que ela fosse ser uma estrela de cinema, dizia seu professor de teatro. ―Tinha aquela beleza, aquela risada. Só precisava que alguém apontasse uma câmera para ela, e teria ficado famosa.
Quando terminou de ler, Alec olhou em volta. O escritório continuava vazio. Tornou a olhar para o obituário, esfregando a borda do papel entre o polegar e o indicador. Estava revoltado com a injustiça daquilo, e por um instante sentiu uma pressão atrás dos olhos, uma ardência, e teve a ridícula sensação de que ia chorar. Sentia-se mal por viver em um mundo onde uma menina de 19 anos, cheia de humor e de vida, podia ser morta daquela forma, sem motivo. A intensidade de suas emoções não fazia muito sentido, considerando que ele não a conhecera em vida; não fazia sentido até ele pensar em Ray, até pensar na carta de Truman para sua mãe e nas palavras ―morreu com coragem, defendendo a liberdade. Os Estados Unidos sentem orgulho dele. Pensou em quando Ray o levara para assistir a Romance dos sete mares bem ali naquele cinema, e em como haviam sentado ombro a ombro e colocado os pés nos encostos das poltronas da fileira da frente. A ardência em seus olhos estava tão forte que ele não conseguia suportar, e respirar lhe causava dor. Esfregou o nariz úmido e se esforçou para chorar o mais silenciosamente possível.
Limpou o rosto com a borda da camisa, pôs o obituário em cima da escrivaninha de Harry Parcells, olhou em volta. Viu os cartazes e as pilhas de latas. Havia um pedaço de rolo de filme em um dos cantos da sala, somente uns oito quadros. Perguntou-se de onde teria saído aquilo e pegou para examinar. Viu uma garota fechando os olhos e erguendo o rosto, em uma série de pequenos
movimentos, para beijar o homem que a segurava em um abraço apertado; estava entregando-se a ele. Alec queria ser beijado daquele jeito algum dia. Sentiu uma curiosa empolgação por estar segurando um pedaço de filme de verdade. Por impulso, enfiou-o no bolso.
Saiu da sala e voltou para o patamar ao pé da escada. Espiou o saguão, esperando encontrar Harry atrás do balcão da lanchonete servindo algum cliente, mas não havia ninguém ali. Alec hesitou, imaginando aonde o homem teria ido. Enquanto pensava nisso, se deu conta de um leve ruído vindo do topo da escada. Olhou lá para cima e então compreendeu — era o projetor. Harry estava trocando os rolos.
Alec subiu os degraus e entrou na sala de projeção, um compartimento escuro, de teto baixo. Um par de janelas quadradas dava para a sala de cinema. O projetor, um grande aparelho de aço inox escovado, com a palavra VITAPHONE impressa no corpo, apontava para uma delas. Harry estava atrás da máquina, inclinado para a frente, olhando pela mesma janelinha através da qual o projetor lançava seu facho de luz. O homem ouviu Alec na porta e lançou-lhe um rápido olhar. Alec esperou que ele fosse mandá-lo embora, mas Harry não disse nada, apenas aquiesceu e voltou à sua silenciosa vigília.
Alec andou até o VITAPHONE, caminhando com cautela no escuro. Observou a pequena janela por um momento, sem ter certeza se teria coragem, então encostou o rosto no vidro e espiou a sala escura lá embaixo.
A imagem na tela iluminava a sala comum azul-marinho profundo: ali estavam novamente o maestro e a silhueta da orquestra. O locutor apresentava a atração seguinte. Alec baixou os olhos e vasculhou as fileiras de assentos. Não foi muito difícil descobrir onde estivera sentado: uma série de poltronas vazias nos fundos, à direita. Quase esperou encontrar a menina ali, afundada na cadeira, com o rosto erguido na direção do teto e coberto de sangue — talvez com os olhos virados para ele. A ideia de vê-la encheu-o ao mesmo tempo de temor e de uma estranha expectativa e, quando percebeu que ela não estava lá, ficou um pouco surpreso com a própria decepção.
A música começou: primeiro as vibrações agudas dos violinos, subindo e descendo em movimentos com-passados, depois uma série de irrupções ameaçadoras dos sopros, sons de natureza quase militar. O olhar de Alec tornou a subir até a tela — ergueu-se e parou ali. Sentiu um calafrio percorrer seu corpo. A pele de seus braços se arrepiou. Na tela, mortos se levantavam dos túmulos, um exército de espectros brancos e pálidos saindo da terra em direção à noite. Um demônio de ombros quadrados, agachado no cume de uma montanha, fazia-lhes sinal. Eles foram até lá, com as mortalhas brancas rasgadas flutuando em volta dos corpos emaciados, os rostos cheios de angústia, pesarosos. Alec soltou um arquejo e prendeu a respiração, assistindo com uma sensação que era um misto de choque e deslumbramento.
O demônio rachou uma fenda na montanha, a-brindo o Inferno. Chamas saltavam, os condenados pulavam e dançavam, e Alec percebeu que o que estava assistindo era sobre a guerra. Sobre o seu irmão morto sem motivo no Pacífico Sul, sobre ―Os Estados Unidos sentem orgulho dele, sobre corpos destruídos e sem remédio, cadáveres se virando e revirando para lá e para cá enquanto rolavam pelas ondas na beira de uma praia qual-quer em algum lugar do Extremo Oriente, encharcando-se, inflando. Era sobre Imogene Gilchrist, que adorava cinema e morrera de pernas abertas e com o cérebro inchado de sangue, e que tinha 19 anos, filha de Colm e Mary. Era sobre pessoas jovens, corpos jovens e saudá-veis, todos furados, com a vida a se esvair em golfadas, sem um único sonho realizado, sem uma única ambição alcançada. Era sobre jovens que amavam e eram amados indo embora para nunca mais voltar, e sobre as patéticas recordações que marcavam sua partida, "Minhas preces hoje estão com a senhora. Harry Truman", e "Eu sempre achei que ela fosse ser uma estrela de cinema."
Um sino de igreja tocou em algum lugar, muito longe. Alec olhou para cima. Era no filme. Os mortos estavam se dispersando. O demônio monstruoso de ombros quadrados se cobriu com suas grandes asas negras, escondendo o rosto da chegada da aurora. Uma fileira de homens de túnica percorria o terreno mais abaixo, carre-gando tochas que brilhavam com uma luz suave. A música avançava em pulsações delicadas. O céu tinha um azul frio, tremeluzente, e a luz ia despontando ali, com o brilho do sol a se espalhar pelos galhos das bétulas e dos pinheiros. Alec ficou olhando, tomado por um sentimento que parecia o êxtase religioso, até o filme terminar.
— Gostei mais de Dumbo — disse Harry.
Ele acionou um interruptor na parede e uma única lâmpada se acendeu, enchendo a sala de projeção de uma luz branca agressiva. O restinho da película passou pelo VITAPHONE e saiu na outra ponta, sendo recolhido por uma bobina. O final do filme ficou girando, girando, fazendo tec, tec, tec. Harry desligou o projetor e olhou para Alec por cima da máquina.
— Você está com uma cara melhor. Recuperou a cor.
— Sobre o que o senhor queria conversar? — Alec se lembrava da expressão séria com que Harry dissera a ele que não saísse dali, e ocorreu-lhe a ideia de que talvez o homem soubesse que ele havia entrado sem comprar ingresso. Talvez estivesse encrencado.
Mas Harry falou:
— Eu me disponho a reembolsar você ou a oferecer dois ingressos gratuitos para o filme que você quiser. É o melhor que posso fazer.
Alec o encarou. Demorou muito tempo até conseguir responder.
— Em troca de quê?
— Em troca de quê? Do seu silêncio. Sabe o que iria acontecer com este lugar se ficassem sabendo sobre ela? Algo me diz que as pessoas não querem pagar para ficar sentadas no escuro ao lado de uma menina morta.
Alec sacudiu a cabeça. Estava surpreso por Harry pensar que as pessoas iriam deixar de ir ao Rosebud se fi-cassem sabendo que o cinema era assombrado. Ele pensava que o efeito seria justamente o oposto. As pessoas ficavam felizes em pagar pela oportunidade de vivenciar um pouco de horror no escuro — caso contrário, os filmes de terror não fariam tanto sucesso. Então se lembrou do que Imogene Gilchrist havia lhe dito sobre Harry Parcells: ―Não vai durar muito como dono deste cinema.‖
— Então, o que é que você prefere? — perguntou Harry. — Os ingressos? Alec fez que não com a cabeça.
— Então quer o reembolso.
— Não.
Harry lançou a Alec um olhar surpreso, hostil.
— Então o que é que você quer?
— Que tal um emprego? O senhor precisa de alguém para vender pipoca. Prometo não usar minhas unhas postiças para trabalhar.
Harry passou um bom tempo olhando para ele, sem responder, em seguida retirou lentamente a mão do bolso de trás da calça.
— Você topa trabalhar nos fins de semana?

EM OUTUBRO, ALEC FICA SABENDO QUE STEVEN GRE-ENBERG ESTÁ DE VOLTA A New Hampshire, filmando externas
para seu novo filme no terreno do colégio Phillips Exeter — alguma coisa com Tom Hanks e Haley Joel Osment no elenco, um professor incompreendido servindo de inspiração para gênios-mirins atormen-tados. Alec não precisa ouvir mais do que isso para saber que Steven talvez estivesse a caminho de mais um Oscar. Mas Alec preferia seu trabalho de antes, as fantasias e os thrillers.
Alec pensa em ir até o colégio para dar uma olhada, imagi-nando se poderia convencer alguém a deixá-lo entrar no set — “Eu conhecia Steven quando ele era garoto” — ou até conseguir permis-são para falar com o próprio Steven. Mas logo desiste da idéia. Deve haver centenas de pessoas nessa região que conheceram Steven quando ele era pequeno, e, na realidade, os dois nunca foram próximos. Na verdade, só tiveram mesmo aquela única conversa, no dia em que ele a viu. Nada antes; pouca coisa depois.
Então Alec fica surpreso quando, numa tarde de sexta-feira, perto do fim do mês, recebe um telefonema da assistente pessoal de Steven, uma mulher aparentemente eficiente e de voz alegre chamada Marcia. Ela quer lhe avisar que Steven gostaria de encontrá-lo e pergunta se ele poderia ir até o set: “No domingo de manhã está bom? Haverá uma credencial à sua espera no prédio principal, no terreno do colégio.” Estarão esperando por ele por volta das 10h da manhã, diz ela antes de desligar, com sua voz jovial e melodiosa. Só muito depois de a conversa terminar é que Alec percebe que não re-cebeu um convite, e sim uma intimação.
Um assistente de produção de cavanhaque recebe Alec no prédio principal e leva-o até o lugar onde estão filmando. Alec vai se postar junto a umas outras 30 pessoas, olhando de longe enquanto Hanks e Osment passeiam juntos por um pátio quadrado coberto de
grama e folhas caídas, Hanks meneando a cabeça como quem está pensando, enquanto Osment fala e gesticula. Na sua frente há uma plataforma móvel, com dois homens e suas câmeras sentados em cima e outros dois empurrando. Steven e um pequeno grupo de pessoas as-sistem de perto, e Steven confere num monitor de vídeo o que está sendo filmado. Ê a primeira vez que Alec visita um set de filmagem, e é com grande prazer que observa aquele trabalho de faz-de-conta profissional.
Depois de conseguir a cena que queria e de conversar por al-guns minutos com Hanks sobre a seqüência, Steven começa a andar na direção do grupo onde Alec está. Seu rosto tem uma expressão tímida, como quem procura alguma coisa. Então ele vê Alec e abre a boca em um sorriso de dentes separados, ergue uma das mãos com um aceno e por um instante se parece muito com o garoto magrelo novamente. Pergunta a Alec se ele quer acompanhá-lo até o refeitório para comer um cachorro-quente e tomar um refrigerante.
Durante a caminhada, Steven parece nervoso, chacoalhando as moedas no bolso e lhe lançando olhares de esguelha. Alec sabe que ele quer falar sobre Imogene, mas não consegue pensar em como a-bordar o assunto. Quando finalmente começa a falar, é sobre as lembranças que tem do Rosebud. Fala de como amava aquele lugar, de todos os ótimos filmes que assistiu lá pela primeira vez. Alec sorri e meneia a cabeça, mas, no fundo, fica um pouco espantado com o tamanho da ilusão de Steven. Ele nunca mais voltou ao Rosebud depois de Os pássaros. Não assistiu a nenhum dos filmes que diz ter assistido lá.
Por fim, Steven gagueja:
— O que vai acontecer com o cinema depois que o senhor se aposentar? Não que o senhor deva se aposentar! Só estou querendo dizer que... o senhor acha que vai ficar mais muito tempo nesse tra-balho?
— Não muito — responde Alec.
É a verdade, mas não diz mais nada. Está preocupado em não se humilhar pedindo ajuda (embora, no fundo, pense que foi isso que o fez ir até ali). Desde que recebeu o convite de Steven para visi-tar o set, vem fantasiando conversas sobre o Rosebud em que Steven, rico e tão apaixonado por cinema, se oferece para jogar uma bóia salva-vidas para Alec.
— Os cinemas antigos são tesouros nacionais — diz Steven. — Eu tenho um ou dois, acredite. Administro como se fossem salas de cinema retrô. Adoraria fazer algo desse tipo com o Rosebud al-gum dia. É um sonho que eu tenho, sabe?
Essa é a sua chance, a oportunidade que Alec não queria admitir que estava esperando. Porém, em vez de dizer que a situação do Rosebud é desesperadora, que o cinema com certeza vai fechar as portas, Alec muda de assunto... e, no fim das contas, não tem cora-gem de fazer o que precisa ser feito.
— Qual o seu próximo projeto? — pergunta Alec.
— Depois deste aqui? Eu estava pensando em fazer um remake — diz Steven, e lança-lhe mais um daqueles olhares dissi-mulados, com o canto dos olhos. — O senhor nunca seria capaz de adivinhar o que é. — Então, de repente, ele estende a mão e toca o braço de Alec. — Voltar para New Hampshire realmente reavivou algumas das minhas lembranças. O senhor acredita que eu tive um sonho com a nossa velha amiga?
— A nossa velha... — começa Alec, e então entende de quem ele está falando.
— Sonhei que o cinema tinha fechado. As portas da frente estavam trancadas com uma corrente, e as janelas, lacradas com tá-buas de madeira. Sonhei que ouvia uma menina chorando lá dentro — diz Steven, com um sorriso nervoso. — Já ouviu coisa mais es-quisita?
Alec volta para casa de carro suando frio no rosto, pouco à vontade. Não entende por que não disse nada, por que não conseguiu dizer nada. Greenberg estava praticamente implorando para lhe dar dinheiro. Alec pensa com amargura que se transformou em um velho muito tolo e inútil.
Quando chega ao cinema, há nove recados gravados em sua secretária eletrônica. O primeiro é de Lois Weisel, de quem Alec não tem notícias há muitos anos. Sua voz está frágil. Ela diz: “Oi, A-lec, aqui é a Lois Weisel, da Universidade de Boston.” Como se ele pudesse tê-la esquecido. Lois viu Imogene em Perdidos na noite. Agora leciona cinema documental para alunos de pós-graduação. Alec sabe que essas duas coisas estão interligadas, assim como não é nenhum acidente Steven Greenberg ter se transformado em quem se transformou. “Será que você poderia me ligar? Eu queria conversar com você sobre... é que... pode me ligar?” Ela então ri, um riso es-tranho, assustado, e diz: “Que loucura.” Expele o ar com força. “Eu só queria saber se aconteceu alguma coisa com o Rosebud. Al-guma coisa ruim. Então... ligue para mim.”
O recado seguinte é de Dana Llewellyn, que viu Imogene em Meu ódio será tua herança. Depois há um recado de Shane Le-onard, que a viu em Loucuras de verão. Depois Darren Camp-
bell, que a viu em Cães de aluguel. Alguns mencionam o sonho, um sonho idêntico ao que Steven Greenberg descreveu: janelas lacra-das com madeira, correntes nas portas, uma menina chorando. Ou-tros dizem apenas que querem conversar. Quando a fita da secretá-ria eletrônica termina, Alec está sentado no chão do escritório, com os punhos das mãos cerrados, chorando descontroladamente.
Umas 20 pessoas devem ter visto Imogene nos últimos 25 anos e quase metade delas deixou recado para Alec. A outra metade entrará em contato ao longo dos dias seguintes, para perguntar sobre o Rosebud, para conversar sobre o sonho. Alec irá falar com quase todas as pessoas vivas que jamais a viram, mas com quem Imogene se sentiu impelida a conversar: um professor de arte dramática, o di-retor de uma locadora de vídeo, um investidor aposentado que, quando jovem, costumava escrever resenhas de filmes iradas e cômicas para a Gazeta de Lansdowne, entre outros. Uma congregação de pessoas que, aos domingos, em vez de ir à igreja, reunia-se no Rose-bud, onde preces eram regidas por Paddy Chayefsky e hinos eram compostos por John Williams. Uma gente cuja intensa fé é um cha-mado ao qual Imogene não consegue resistir. Gente como o próprio Alec.
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Re: Fantasma do Século XX

Mensagem  Bianca Johnson em Sab Mar 09, 2013 4:48 pm

DEPOIS DA VENDA, O ROSEBUD PASSA DOIS MESES FE-CHADO PARA REFORMAS. Poltronas novas, um sistema de som de última geração. Uma dúzia de artesãos ergue andaimes e traba-lha com pequenos pincéis para restaurar a sanca de gesso esfarelada do teto. Steven chama mais gente para supervisionar o dia-a-dia da
obra. Embora o lugar pertença a Steven agora, Alec concorda em continuar administrando as coisas durante algum tempo.
Lois Weisel aparece três vezes por semana para filmar um documentário sobre a reforma, usando seus alunos em diversas fun-ções: eletricistas, técnicos de som, pau-para-toda-obra. Steven quer uma reinauguração em grande estilo para celebrar o passado do Ro-sebud. Quando Alec descobre o que ele está planejando para a pri-meira exibição — uma sessão dupla com O mágico de Oz e Os pássaros —, seus braços ficam arrepiados; mas ele não discute.
Na noite da reinauguração, o lugar fica lotado como não fi-cava desde a estréia de Titanic. A imprensa local está presente para filmar as pessoas vestidas com suas melhores roupas. Steven também está lá, é claro, o que explica todo o bafafá... embora Alec ache que a noite teria lotação esgotada mesmo sem Steven, pois as pessoas te-riam comparecido apenas para ver o resultado da reforma. Alec e Steven posam para os fotógrafos, os dois debaixo da marquise, de smoking, apertando-se as mãos. O smoking de Steven é um Arma-ni, comprado especialmente para a ocasião. O de Alec é o mesmo que ele usou em seu casamento.
Steven chega mais perto dele, encostando o ombro no seu pei-to.
— O que você vai fazer da vida agora?
Antes de receber o dinheiro de Steven, Alec teria ido se sen-tar atrás do guichê para vender ingressos, e depois subido para ligar o projetor. Mas Steven contratou alguém para vender os ingressos e operar o projetor.
— Acho que vou sentar e ver o filme — Alex responde.
— Guarde um lugar para mim — diz Steven. — Mas talvez eu só consiga entrar para ver Os pássaros. Preciso falar um pouco mais com a imprensa.
Lois Weisel instala uma câmera na frente da sala, virada para o público e carregada com uma película ultra-sensível para to-madas no escuro. Filma os espectadores em diferentes momentos, re-gistrando suas reações a O mágico de Oz. Essa era a conclusão prevista para o seu documentário — uma casa cheia assistindo a um clássico do século XX naquele templo do cinema restaurado com amor —, mas o filme não termina como ela pensava.
Nos primeiros planos da bobina de Lois, é possível ver Alec sentado no fundo da sala, à esquerda, com o rosto erguido para a tela, os óculos reluzindo no escuro com reflexos azuis. O assento à sua esquerda, no corredor, está vazio; é o único lugar vazio no cine-ma. Algumas vezes, ele pode ser visto comendo pipoca. Em outros momentos, está simplesmente sentado assistindo, com a boca frouxa, um pouco aberta, e uma expressão quase transfigurada no rosto.
Então, em um dos planos, ele se vira para o assento vazio. Ao seu lado agora está sentada uma mulher de azul. Ele se inclina na direção dela. Não há dúvida de que estão se beijando. Ninguém à sua volta lhes dá a menor atenção. O mágico de Oz está no fim. Sabemos disso porque podemos ouvir Judy Garland repetindo sem parar as mesmas palavras com uma voz suave, melancólica, dizen-do... bom, vocês sabem o que ela está dizendo. São simplesmente as palavras mais bonitas jamais ditas em toda a história do cinema.
No plano que vem imediatamente depois, as luzes da sala se acendem e várias pessoas estão reunidas em volta do corpo de Alec, afundado pesadamente na poltrona. Steven Greenberg está no corredor, gritando, histérico, para alguém chamar um médico. Uma criança chora. O resto do público emite um chiado baixo e indistinto de conversas animadas. Mas pouco importa esse plano. As imagens anteriores são muito mais interessantes.
A cena em que Alec aparece ao lado de sua companheira não identificada dura apenas alguns segundos — umas poucas cen-tenas de quadros —, mas é a ela que Lois Weisel irá dever sua re-putação — sem falar de sua fortuna. A seqüência será exibida em programas de televisão sobre fenômenos inexplicáveis, vista e revista em reuniões de pessoas fascinadas pelo sobrenatural. Será estudada, debatida, refutada, confirmada e celebrada. Então vamos vê-la mais uma vez.
Ele se inclina sobre ela. Ela vira o rosto em sua direção e fecha os olhos. Ela é muito jovem e está se entregando a ele por com-pleto. Alec tira os óculos. Está segurando de leve a cintura dela. É assim que as pessoas sonham ser beijadas, um beijo de estrela de ci-nema. Olhar para eles quase nos faz torcer para esse instante não acabar nunca. E, durante todo esse tempo, a voz delicada e corajosa de Dorothy enche o cinema escuro. Ela está dizendo alguma coisa sobre voltar para casa. Está dizendo uma coisa que todo mundo sa-be.
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Re: Fantasma do Século XX

Mensagem  Bianca Johnson em Sab Mar 09, 2013 4:52 pm

Talvez vocês tenham notado, ou não, que no meio do texto começam a aparecer tracinhos no lugar errado. É uma falha de onde eu copiei o texto pra passar pra cá. Então, desculpem se dificultar na hora de ler.
E agora, o que acharam? :3
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